A violência é outra
“Ando cansada de espreitar da janela de meu carro para ver se o carro vizinho me aponta a metralhadora ou se é apenas um conhecido me cumprimentando”, Lya Luft, em VEJA.
A violência é hoje a maior preocupação dos brasileiros e o ponto mais fraco do Governo, segundo pesquisa divulgada neste final de semana pelo Datafolha. Mais do que a miséria, mais do que o desemprego, mais do que a economia, é a violência que desassossega.
É justificável. Da garantia à segurança nasce a concepção da formação do Estado, capaz de assegurar a preservação da vida, a liberdade de ir e vir e o direito à inviolabilidade da propriedade - capaz de reservar para si o monopólio da violência.
Se o Estado não consegue exercer esses preceitos, perde legitimidade como tal.
A corrida da violência ao topo das preocupações dos brasileiros serviu de convite para que buscasse estatísticas sobre o crime no País. E, para minha surpresa, relatórios oficiais – que julgo minimamente confiáveis – apontam não para o aumento, mas para a queda da criminalidade, pelo menos no eixo Rio-São Paulo.
Segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, por exemplo, a taxa anual de homicídios dolosos caiu de 58,6 por 100 mil habitantes, em 1991, para 42,1, em 2005. Trata-se de uma redução de 28,15% em relação ao que víamos há 15 anos! Conclusão: não vivemos nada que não tenha sido pior há quase duas décadas.
Não ameniza o fato de que os índices de violência e, particularmente, os de assassinatos, ainda são extremamente altos, entre os maiores do mundo. A questão não é essa, mas a disparidade entre violência e percepção da violência. Os gráficos do crime caem, morosamente, mas caem. Os do medo disparam.
Impossível não achar pelo menos parte da resposta para tamanha contradição no trato sensacionalista que a mídia tem dado à cobertura de alguns casos, em especial a do garoto João Hélio, barbaramente morto há pouco mais de um mês.
Não que assassinatos, balas perdidas, estupros e toda a sorte de mazela desse tipo devam ser omitidos. Eles precisam, sim, ser denunciados, tais como a enorme ineficiência do Estado na área de segurança pública. O problema é transformar a violência em um espetáculo grotesco, construído sobre a audiência de uma população amedrontada todos os dias pelo que lê e assiste.
Na jornalismo de marketing, pautado pela expectativa do leitor/consumidor e pelos índices de audiência, não importa que a violência esteja caindo. Mais importe é saber que os brasileiros temem mais a violência, um prenúncio de que mais sangue vai jorrar daqui para frente – pelo menos nos tubos de TV e páginas de jornais. Afinal, o show tem que continuar.
Texto originalmente publicado no blog Domínio Público em 27 de março de 2007
Filed under: Sobre assuntos sérios | 0 Comments
Tags: violência
Sexo nos Trilhos
Praticamente duas horas do dia eu passo dentro do trem que liga minha afável Ribeirão Pires a malcriada São Paulo. É muito mais tempo do que o necessário para deixar de se surpreender com uma enormidade de cenas, diálogos, situações e pessoas que confortavelmente julgamos não existirem. Felizmente, há alguns dias, pude saber que meus olhos (pelo menos eles) ainda não se haviam cauterizado para tudo isso.
Em mais uma sonolenta viagem rumo ao trabalho, já entre as estações Luz e Barra Funda, escorado no vão da janela do trem, percebo um casal fazendo sexo em um dos trilhos abandonados. Isso mesmo! Fazendo amor, transando, fodendo mesmo…
Faziam “aquilo” ali, às claras, onze e pouco da manhã, assistidos por algumas centenas de passageiros. Ele deitado sobre o corpo dela, ela com as pernas abertas e abraçadas ao corpo dele, completamente nus sob o céu de brigadeiro daquela indesejada segunda-feira.
Confesso que não prestei maior atenção na reação das pessoas, embora tenha boas razões para pensar que muitos tenham ficado chocados. Aquilo era muito diferente do sexo que fartamente se vende na TV, em outdoors ou bancas de jornal, e passava longe de ser objeto de satisfação do voyeurismo digital que tomou conta da nossa vida. Não era um reality show. Era real e, por isso, dolorosamente humano.
O que não quer dizer que não houvesse algo de profundamente terno naquela cena, em dois moradores de rua, talvez marido e mulher, talvez namorados ou apenas cúmplices apaixonados de um atentado público ao pudor.
Foras da lei, o que soa até contraditório, pois sexo ainda é (entre muitas outras coisas mais ou menos nobres) uma expressão de amor, afeto e carinho. E pessoas não deveriam ser presas por demonstrar amor, afeto e carinho em público. O que apenas se explica pela liberdade com que o sexo caminha entre os campos do profano e sagrado, puro e imundo, terno e lascivo, desejado e recriminado.
Certamente nada disso preocupava aqueles dois amantes, ali deitados sem pressa, sem puderes e, claro, sem um teto que os abrigasse. Porque se o tivessem, certamente não estariam sobre os trilhos em que caminham livres pequenos camundongos pelo lixo amontoado. Certamente não.
Mas ali estavam por que faltou uma casa, um quarto e uma cama, suficientes para transformar aqueles dois vagabundos sem vergonha, ali criminosos, em pessoas de respeito. Uma casa, dentro da qual as verdades humanas se manifestam de maneira mais evidente e onde suas mais bizarras e repreensíveis distorções são prontamente escondidas.
Dentro dela, não apenas o sexo, mas a violência, o abuso e a opressão muitas vezes tornam-se “assunto de família”, omitidas da “sociedade” e do Estado. Fora, tudo fica exposto para o julgamento farisaico das pessoas “de bem”, como a frágil nudez daqueles corpos maltratados, com suas virtudes e pecados, desejos, instintos e necessidades, das quais apenas algumas ali saciadas.
Corpos sem direito à intimidade, expõem-se compulsoriamente aos olhos de todos nos momentos em que nos esconderíamos de Deus se possível. E se eles já tomam banho, alimentam-se e expelem seus excrementos em público, o que impede de fazer sexo onde quer que seja?
São moradores de rua. A rua é sua casa, e nós, meros intrusos. Para ver neles os fragmentos de humanidade que escondemos e de que nos esquivamos por trás dos vidros de nossos carros, sob o teto de nossas acolhedoras casas e sob as vestes de nossa hipocrisia. Para que nos lembrem, ainda que por instantes, quem ainda somos e do que nos fizeram.
Gerson Freitas Jr.
(Texto originalmente publicado no blog Domínio Público em 23/04/2007)
Filed under: Histórias do trem | 0 Comments
Tags: sexo, trem