Confesso que nunca acreditei em Papai Noel. Mas me restasse alguma dúvida, ela teria se desfeito naquela terça-feira; uma ordinária e enfadonha terça-feira.

Estava de pé no interior de um vagão de trem, galgando espaço entre corpos exprimidos na tentativa de chegar até a porta.

Ali perto, dois senhores me chamam a atenção pelas semelhanças entre si e a diferença em relação aos demais.

Tinham cabelo e barba longos, alvos como a neve, a pele clara e as bochechas rosadas, grande barriga, óculos redondos, camisa-xadrez e anos avançados.

Aqueles velhos me lembraram…aqueles judeus ortodoxos que, de quando em vez, eu via caminhar pelas ruas de Higienópolis!

Mas não deviam ser não, e logo conclui quando me atentei para a quantidade de palavrões da conversa.

Não sei se judeus ortodoxos falam palavrão, mas quero crer que não. Não em público, pelo menos.

Cheguei mais perto e, sem que dessem conta da minha intromissão, desvendei o mistério.

Aqueles dois senhores eram Papais Noéis. Daqueles da vida real, que não têm trenós, renas e fábrica de brinquedos, e trabalham como temporários em estabelecimentos comerciais no natal.

Falavam sobre as balas que distribuiriam para as crianças dali a pouco menos de três meses.

Balas?

Não, bala.

- Porra, meu! Naquele shopping, eles só deixam dar uma bala por criança, e daquela dura! Porra! Eu fico constrangido,né? Onde já se viu? Porra! A criança vai lá e você dá… uma bala! Não quero nem saber; dou logo umas três, quatro. Eles que reclamem!!!

Papai Noel subversivo – e boca suja.

Cuidei que nenhuma criança ouvisse aquela conversa. Imagine só o desencantamento com a cena!

E fiquei confortado por nunca ter acreditado em Papai Noel e alimentado uma ilusão tão frágil que se desfizesse após poucos segundos de conversa. Sabe lá Deus que traumas me causaria…

Mas depois, confesso, fiquei triste. Poxa, eu nunca acreditei em Papai Noel…

(Texto originalmente publicado no blog Domínio Público em 10 de outubro de 2007)


Dez horas da manhã de uma terça. Quem acorda esse horário só pode ser vagabundo. Só pode. A não ser que você trabalhe numa porcaria de horário e tenha chegado em casa já na alta madrugada.

“O caminhão de morangos está na sua rua. Venha aproveitar. Há outras pessoas esperando.” Quem diabos se importa? Vá para o inferno ver se lá alguém se interessa pelos seus morangos.

Eu odeio o caminhão de morangos com todas as minhas forças. Sei que o cara está apenas tentando conseguir um troco para sobreviver, que provavelmente deve ter mulher e filhos para sustentar, mas é mais forte –muito mais forte– do que eu. Além do mais, eu não odeio o cara do caminhão de morangos. Eu nutro um profundo ódio pela instituição “caminhão de morangos”.

Primeiro que eu sequer gosto de morango. Depois que, além de barulhento, o caminhão de morangos é arrogante, em que pese o risco que sei que estou correndo ao atribuir emoções ou sentimentos humanos a uma coisa inanimada como um caminhão de morangos. Espero que enfermeiros munidos de camisas-de-força não interrompam a elaboração desse texto no meio.

Mas ele (o caminhão) é, de fato, arrogante. Ele acredita que sua presença é uma luz na vida das pessoas, como se fosse um messias. “Eu sou seu Deus, o caminhão de morangos. Venha já ouvir a voz da salvação que eu tenho que pregar em outras ruas.”

Juro que não poderia me importar menos onde está o caminhão de morangos, desde que seja bem longe da minha casa. Mas não, ele insiste. “O caminhão de morangos está na sua rua, venha aproveitar. Outras pessoas estão esperando.” Ora, então vá atendê-las e me deixe em paz.

Se eu fosse um cara violento ou fundamentalista, proporia uma jihad contra os caminhões de morangos. Criaria caminhões-de-morango-bombas para destruir a credibilidade da instituição “caminhão de morangos”.

Prefiria muito mais o caminhão de pamonhas que, além de vender um produto muito mais gostoso, não era tão arrogante quanto o caminhão de morangos. Ele só dizia “Pamonhas, pamonhas, pamonhas. Pamonhas fresquinhas. Venha experimentar essa delícia.” Não uma mensagem como “Hoje é o seu dia de sorte. O caminhão de morangos está na sua rua. Aproveite esse fato espetacular na sua vidinha pacata, tediosa e inútil e venha comprar logo, afinal eu não tenho o dia todo e existem várias outras pessoas muito mais interessantes que você querendo os morangos.”

Não sei se o leitor conseguiu entender a minha bronca. Mas o caminhão de morangos se daria bem, sei lá, na Argentina. Poderíamos mudar aquela piada e dizer que o melhor negócio do mundo é comprar o caminhão de morangos pelo que ele realmente vale e vendê-lo, na seqüência, pelo que ele acha que vale.

De todo modo, o resumo da ópera é esse. Eu odeio o caminhão de morango, mas eu sou normal. Há pessoas que odeiam o criado-mudo no qual topam com a canela todo dia ao acordar. Há outras que odeiam aquele poste maldito que insistiu em entrar no caminho do seu carro quando você dava marcha-ré. Eu também odeio uma coisa. O caminhão de morangos e tudo que ele representa: a arrogância moranguista.

Eduardo Simões

Texto originalmente publicado no blog Domínio Público em 1º de agosto de 2007


Já conhecia Simone há uns quatro meses, tinham um amigo em comum e começaram a conversar. Otávio logo se interessou e rapidamente trocou telefones, endereços de Messenger e essas coisas todas com a moça. Conversavam bastante, mas ele achava que ela nunca dava a deixa para que ele tentasse uma aproximação final.

Foi quando Simone decidiu chamá-lo para uma festa de formatura de um conhecido, amigo ou coisa que o valha. Topou na hora. Ficou de encontrá-la já dentro do salão da festa. Colocou um terno, arrumou uma gravata nova que, segundo o vendedor, “parlava italiano”. Chegou confiante e garboso. Tinha que ser ali, afinal ela não o teria convidado se não esperasse dele uma atitude ali.

Cumprimentou um monte de gente. Tias, tios, amigos, conhecidos e tudo o mais. Quando finalmente se desvencilhou das formalidades, foi logo tentando puxar assunto com Simone, esperando um sinal, um sorriso. Se não tivesse ia para o tudo-ou-nada.

Mas de repente chega um outro cara, mais forte, mais alto e mais bonito que Otávio, Ele cumprimenta Simone com um beijo no rosto e um longo abraço. Na expectativa, Otávio fica de lado, esperando o cara ir embora para que pudesse continuar de onde parou. Simone o apresenta. É seu primo Ernesto do interior, que ela não via “há o quê? Uns seis anos?”.  E sorri largamente para, em seguida, se engajar em um longo papo com o primo.

Otávio certamente não esperava esse contratempo. O melhor que tem a fazer é ir tomar um drinque enquanto espera esse papo chato sobre bobagens da infância acabar. Vai até o balcão e apanha um copo de uísque. Só que alguns minutos depois, copo já vazio, a conversa entre Simone e Ernesto segue animada, e adornada por carinhos mútuos, ora no braço, ora no rosto.

“Ora, que maldição!” Se lamenta Otávio, o jeito é pedir outra bebida. O copo já é o quarto e nada da conversa terminar. A cólera já começa a tomar conta de Otávio, que sequer tira os olhos dos dois primos para pedir outra dose de uísque, que já começava a se contar na casa das dezenas.

De súbito ele não se agüenta mais de raiva, toma o décimo-quinto copo de uísque num gole só, o coloca no balcão com força, limpa a boca com a manga da camisa e parte decidido em direção à mesa de Simone. Antes que ela ou Ernesto pudessem dizer algo, Otávio empurra o primo e lhe desfere um potente soco no rosto. Ainda enfurecido, ele aproveita que o adversário está no chão e pisa em seu tronco com ódio. Arma-se o escândalo e os seguranças expulsam o cambaleante Otávio do salão.

Horas depois, Otávio escuta a campainha do telefone, faz um enorme esforço para levantar, mas a ressaca e a dor de cabeça são insuportáveis. Percebe que já amanheceu e, com dificuldade atende ao telefone. A voz do outro lado, a do amigo em comum com Simone, lhe conta com ar sombrio.

- Cara, o primo da Simone morreu. Uma das três costelas quebradas perfurou o pulmão e ele não resistiu ao sangramento interno. É melhor você arrumar um advogado.

Desliga o telefone, mal digere a informação que acabara de receber e a campainha toca. Abre a porta e vê Simone com um semblante enfurecido. Sem pedir licença nem nada ela adentra em seu apartamento. Otávio fecha a porta e tenta se desculpar.

- Olha, me desculpa. Eu não devia ter feito aquilo, eu tava com umas a mais, mas nunca que eu querer machucá-lo e…

Foi interrompido por uma sonora bofetada na face direita.

- Cala essa boca! – diz Simone ao mesmo tempo em que o empurra no sofá, monta em cima dele e lhe dá um libidinoso beijo na boca.

- Finalmente você tomou uma atitude de homem, honrou as calças que veste.

E copularam ali mesmo, enquanto não muito distante dali tias, tios, amigos e conhecidos choravam a morte precoce do jovem Ernesto.

Eduardo Simões

Texto originalmente publicado no blog Domínio Público em 13 de fevereiro de 2008


“Ando cansada de espreitar da janela de meu carro para ver se o carro vizinho me aponta a metralhadora ou se é apenas um conhecido me cumprimentando”, Lya Luft, em VEJA.

 A violência é hoje a maior preocupação dos brasileiros e o ponto mais fraco do Governo, segundo pesquisa divulgada neste final de semana pelo Datafolha. Mais do que a miséria, mais do que o desemprego, mais do que a economia, é a violência que desassossega.

É justificável.  Da garantia à segurança nasce a concepção da formação do Estado, capaz de assegurar a preservação da vida, a liberdade de ir e vir e o direito à inviolabilidade da propriedade -  capaz de reservar para si o monopólio da violência.

Se o Estado não consegue exercer esses preceitos, perde legitimidade como tal.

A corrida da violência ao topo das preocupações dos brasileiros serviu de convite para que buscasse estatísticas sobre o crime no País. E, para minha surpresa, relatórios oficiais  – que julgo minimamente confiáveis – apontam não para o aumento, mas para a queda da criminalidade, pelo menos no eixo Rio-São Paulo.

Segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, por exemplo, a taxa anual de homicídios dolosos caiu de 58,6 por 100 mil habitantes, em 1991, para 42,1, em 2005. Trata-se de uma redução de 28,15% em relação ao que víamos há 15 anos! Conclusão: não vivemos nada que não tenha sido pior há quase duas décadas.

Não ameniza o fato de que os índices de violência e, particularmente, os de assassinatos, ainda são extremamente altos, entre os maiores do mundo. A questão não é essa, mas a disparidade entre violência e percepção da violência. Os gráficos do crime caem, morosamente, mas caem. Os do medo disparam.

Impossível não achar pelo menos parte da resposta para tamanha contradição no trato sensacionalista que a mídia tem dado à cobertura de alguns casos, em especial a do garoto João Hélio, barbaramente morto há pouco mais de um mês.

Não que assassinatos, balas perdidas, estupros e toda a sorte de mazela desse tipo devam ser omitidos. Eles precisam, sim, ser denunciados, tais como a enorme ineficiência do Estado na área de segurança pública. O problema é transformar a violência em um espetáculo grotesco, construído sobre a audiência de uma população amedrontada todos os dias pelo que lê e assiste.

Na jornalismo de marketing, pautado pela expectativa do leitor/consumidor e pelos índices de audiência, não importa que a violência esteja caindo. Mais importe é saber que os brasileiros temem mais a violência, um prenúncio de que mais sangue vai jorrar daqui para frente – pelo menos nos tubos de TV e páginas de jornais. Afinal, o show tem que continuar.

Texto originalmente publicado no blog Domínio Público em 27 de março de 2007


Praticamente duas horas do dia eu passo dentro do trem que liga minha afável Ribeirão Pires a malcriada São Paulo. É muito mais tempo do que o necessário para deixar de se surpreender com uma enormidade de cenas, diálogos, situações e pessoas que confortavelmente julgamos não existirem. Felizmente, há alguns dias, pude saber que meus olhos (pelo menos eles) ainda não se haviam cauterizado para tudo isso.

Em mais uma sonolenta viagem rumo ao trabalho, já entre as estações Luz e Barra Funda, escorado no vão da janela do trem, percebo um casal fazendo sexo em um dos trilhos abandonados. Isso mesmo! Fazendo amor, transando, fodendo mesmo… 

Faziam “aquilo” ali, às claras, onze e pouco da manhã, assistidos por algumas centenas de passageiros. Ele deitado sobre o corpo dela, ela com as pernas abertas e abraçadas ao corpo dele, completamente nus sob o céu de brigadeiro daquela indesejada segunda-feira.

Confesso que não prestei maior atenção na reação das pessoas, embora tenha boas razões para pensar que muitos tenham ficado chocados. Aquilo era muito diferente do sexo que fartamente se vende na TV, em outdoors ou bancas de jornal, e passava longe de ser objeto de satisfação do voyeurismo digital que tomou conta da nossa vida. Não era um reality show. Era real e, por isso, dolorosamente humano.

O que não quer dizer que não houvesse algo de profundamente terno naquela cena, em dois moradores de rua, talvez marido e mulher, talvez namorados ou apenas cúmplices apaixonados de um atentado público ao pudor.

Foras da lei, o que soa até contraditório, pois sexo ainda é (entre muitas outras coisas mais ou menos nobres) uma expressão de amor, afeto e carinho. E pessoas não deveriam ser presas por demonstrar amor, afeto e carinho em público. O que apenas se explica pela liberdade com que o sexo caminha entre os campos do profano e sagrado, puro e imundo, terno e lascivo, desejado e recriminado.

Certamente nada disso preocupava aqueles dois amantes, ali deitados sem pressa, sem puderes e, claro, sem um teto que os abrigasse. Porque se o tivessem, certamente não estariam sobre os trilhos em que caminham livres pequenos camundongos pelo lixo amontoado. Certamente não.

Mas ali estavam por que faltou uma casa, um quarto e uma cama, suficientes para transformar aqueles dois vagabundos sem vergonha, ali criminosos, em pessoas de respeito. Uma casa, dentro da qual as verdades humanas se manifestam de maneira mais evidente e onde suas mais bizarras e repreensíveis distorções são prontamente escondidas.

Dentro dela, não apenas o sexo, mas a violência, o abuso e a opressão muitas vezes tornam-se “assunto de família”, omitidas da “sociedade” e do Estado. Fora, tudo fica exposto para o julgamento farisaico das pessoas “de bem”, como a frágil nudez daqueles corpos maltratados, com suas virtudes e pecados, desejos, instintos e necessidades, das quais apenas algumas ali saciadas.

Corpos sem direito à intimidade, expõem-se compulsoriamente aos olhos de todos nos momentos em que nos esconderíamos de Deus se possível. E se eles já tomam banho, alimentam-se e expelem seus excrementos em público, o que impede de fazer sexo onde quer que seja?

São moradores de rua. A rua é sua casa, e nós, meros intrusos. Para ver neles os fragmentos de humanidade que escondemos e de que nos esquivamos por trás dos vidros de nossos carros, sob o teto de nossas acolhedoras casas e sob as vestes de nossa hipocrisia. Para que nos lembrem, ainda que por instantes, quem ainda somos e do que nos fizeram.

Gerson Freitas Jr.

(Texto originalmente publicado no blog Domínio Público em 23/04/2007)